Às leitoras e aos leitores...

O intuito deste blog é facilitar a comunicação, fazendo circular a informação e promovendo conexões de idéias e pessoas que se interessam pela capoeira angola.
As opiniões são pessoais e, portanto, de minha inteira responsabilidade, não correspondendo necessariamente a qualquer posição oficial do Grupo Nzinga.
Peço licença às mestras e mestres, de hoje e de sempre, para humildemente participar nessa roda. Sou um aprendiz. Procurarei mantê-lo atualizado e espero que seja de algum jeito útil.
Um abraço!

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Segundo "Viva Pastinha"

O II Encontro Cultural de Capoeira Angola "Viva Pastinha" foi realizado em Brasília, no mês da Consciência Negra de 2003. Seu tema foi "Capoeira Angola e Educação", aproveitando o ensejo da então recente Lei 10.639, que determina o ensino da história e das culturas africana e afro-brasileiras nas escolas do país.

A abertura foi na Fundação Cultural Palmares, com a presença de seu atual presidente, Zulu Araújo, bem como de outros convidados e convidadas ilustres, como os professores Nelson Inocêncio e José Jorge Carvalho.

Ao longo da programação, que mesclou muita arte e capoeira com discussões aprofundadas, aprendemos muito com as palestras do pesquisador Sales Augusto dos Santos e do professor Edson Cardoso, diretor do Jornal Irohin.

Na parte cultural, foram marcantes a oficina de frevo de Uirá Dias, o espetáculo do Boi de Seu Teodoro, a aula de dança dos inquices do Tata Mutá Imê e o forró arretado de Sivuquinha. Além, é claro, do grande Tião Carvalho e da Orquestra Nzinga de Berimbaus!

Tudo permeado pelos ensinamentos dos Mestres Paulinha, Janja e Poloca, em treinos e rodas cheias de ngunzo. Sem falar na presença vibrante da família Nzinga e de amigos, tanto de Brasília mesmo quanto gente como as meninas alunas de Leninho e Guaraná, de Goiânia, Dênis de Angolinha, Silvinho da FICA e Jorge do Grupo Zimba.

Pra mim, então, o gosto foi ainda mais especial porque no final fui feito treinéu do Grupo Nzinga, uma honra e uma emoção nunca imaginadas e impossíveis de descrever.

Esse clipe mostra um pouco do que foram aqueles momentos. Espero que curtam.




Realização:
INCAB - Instituto Nzinga de Estudos de Capoeira Angola e Tradições Educativas Banto no Brasil
Grupo Nzinga de Capoeira Angola - núcleo DF

Edição:
Camila Dutervil
Lucas Henrique de Paula

Filmagens:
Estúdio Zumbayllu

Apoio:
FAC - Secretaria de Cultura do Distrito Federal

sábado, 1 de novembro de 2008

Lutas da angola

Grupo Nzambi e convidados (sou o de chapéu)

No começo, era a briga pela sobrevivência.
A resistência contra a injustiça, diante de muita violência e sofrimento.
Rasteiras e cabeçadas contra a opressão.
Perseguição. Repressão. Dor.
A capoeira sempre sobreviveu.
E venceu muitas batalhas titânicas.
Pela liberdade, pela igualdade, por respeito.
Golpes, esquivas, mandingas e gingas.
Palavra, pensamento, filosofia e discussão.
Armas de ontem e de hoje.

Quais as lutas atuais da capoeira?
Com certeza, contra o racismo, tão real e dissimulado nesse Brasil.
Sem nenhuma dúvida, pelo reconhecimento do valor do saber tradicional.
Por uma velhice digna para os velhos mestres.
Pelo respeito à diversidade religiosa.
Etc. etc.

Dentre tantas lutas fundamentais, destaco uma, o combate ao machismo na própria capoeira.
Nenhuma surpresa, suponho.
Todo mundo sabe que essa é uma das bandeiras do Grupo Nzinga, um dos poucos no universo da capoeira angola com efetiva liderança feminina, sob a batuta de Mestra Paulinha e Mestra Janja.

Pra falar do tema, aproveito um material que preparei para um bate-papo do
qual participei, sobre o papel da mulher na capoeira.
Foi no aniversário do Grupo Nzambi, da Mestra Elma, outra exceção que confirma a regra, em maio deste ano, aqui mesmo em Brasília. (Pus a foto aí em cima)

Primeiro, pego emprestada (sem autorização prévia) uma frase da Mestra Janja:


"Partindo da tese que toma a capoeira enquanto uma estrutura social capaz de representar variados entendimentos sobre a vida social, se apresentado historicamente com capacidade para transgredir vários códigos e normas da ordem nas suas lutas de proteção e preservação, tais transgressões não incorporaram até o presente momento a proteção e a preservação dos direitos da mulher." (Janja)

De fato, quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir já percebeu que a capoeira, arma de libertação, muitas vezes entra em contradição consigo mesma, a partir de certas posturas autoritárias, até abusivas, que tentam negar às mulheres o que lhes é de direito e merecimento. Por que isso acontece?

Certamente não sou a pessoa mais indicada para responder, mas resolvi dar meu pitaco. E, para começar, creio que devemos pensar em como temos lidado com a tradição. Sim, pois não é difícil perceber que ela é muitas vezes usada mais como instrumento de reprodução e perpetuação de relações de poder do que qualquer outra coisa. Aí, fica a pergunta: até que ponto ela pode e deve ser reinterpretada e resignificada?

Tome-se o exemplo do candomblé, religião professada por muitos capoeiristas. Historicamente, as mulheres têm nele um lugar de destaque, senão de liderança máxima, o que aliás não é comum entre as religiões de um modo geral. Apesar de terem brotado da mesma raiz, estranhamente, a capoeira se transformou em um feudo masculino.

No passado, as mulheres capoeiristas
tinham que se masculinizar para ganhar espaço e respeito na capoeira. Basta ver seus apelidos: Maria Doze Homens, Rosa Palmeirão, Claudivina Pau-de-Barraca, Dora das Sete Portas, Maria Homem e Júlia Fogareira. Mulheres fortes, sem dúvida, que deixaram seus nomes na história. Mas será que ainda hoje as mulheres terão que conquistar seu espaço "na porrada"?

É triste costatar que em pleno século XXI as mulheres continuam se deparando com diversas formas de violência também no interior da capoeira.
Há depoimentos de várias formas de assédio, passando pela agressão sexual e psicológica. E o que é pior, muitas vezes partindo dos próprios mestres, dos responsáveis pelos grupos ou de alunos mais experientes.

Por outro lado, é preciso reconhecer que há muitas maneiras mais sutis de opressão. As letras de músicas, por exemplo. No Nzinga, chegamos a mudar letras "tradicionais" e não posso negar que dá uma ponta de orgulho em ver que cada vez mais grupos soltam a voz para dizer que a capoeira "tem homem e tem mulher". Tampouco cantamos canções que reforçam estereótipos femininos negativos.

Enfim, a questão é complexa e merece nossa reflexão. E ação. Que as mulheres possam assumir posições de liderança em seus grupos por seu próprio valor e merecimento, como qualquer pessoa, "pegar o gunga" e ajudar a capoeira a cumprir, mais uma vez, sua vocação revolucionária e libertadora.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Contexto 3

Não tenho conhecimento de trabalhos regulares de capoeira angola em Brasília nos dez anos que se seguiram. Mas é claro que isso pode ser só por desconhecimento meu. Uma vez me falaram de um grupo sedidado em uma das chamadas cidades-satélite, mas não consegui confirmar a informação.
Em 1998, se não me engano, um aluno do Mestre Goiano, de Goiânia, o Ubiranei, sul-matogrossense de apelido Baiano, começou um trabalho na UnB. Eu mesmo, que acabara de me mudar para a cidade, treinei com o grupo por quase um ano. Pelo que me recordo, o Malungos (esse era o nome do grupo) se dissolveu uns dois anos depois. Quando isso aconteceu, por sinal, já tínhamos começado o trabalho do Nzinga DF.
Desde então, a capoeira angola tem aos poucos se firmado em terras candangas. Nesse processo, foi importante a chegada da maranhense Mestra Elma, aluna de Mestre Pato, que deu seguimento por aqui ao Grupo Nzambi, nascido em Porto Alegre.
Como reflexo desse movimento, e também do crescente interesse de alguns grupos de capoeira regional, diversos mestres e mestras estiveram na capital nos últimos dez anos. De cabeça, posso citar Mestra Janja, Mestra Paulinha e Mestre Poloca, do Grupo Nzinga, em vários eventos que promovemos. Nosso grupo também promoveu a vinda de Mestre Cobra Mansa e de Mestre Valmir, da Fundação Internacional de Capoeira Angola - FICA.
Além desses, vale destacar as presenças de: Mestre Ananias, Mestre Virgílio, Mestre Boca Rica, Mestre Jogo de Dentro, Mestre Pato, Mestre Moraes, Mestre Angolinha, Mestre Jurandir, Mestre Lua Rasta, Mestre Cláudio de Feira de Santana, Mestre Sapo de Olinda, Mestre Roxinho e Mestre Goiano.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Contexto 2


A capoeira regional tem uma tradição consolidada em Brasília. Alunos do Mestre Bimba, como o Mestre Onça-Tigre e o Mestre Pombo de Ouro, ajudaram a fundá-la e difundi-la, formando diversos discípulos, e hoje são inúmeros os grupos e praticantes da modalidade.
Por outro lado, não se tem notícia de uma linhagem propriamente de capoeira angola com antiguidade comparável.
Dito isso, um evento que merece registro é o "Festival Praia Verde", realizado em outubro de 1986. Contando com a presença de diversos mestres importantes da capoeira angola baiana, tais como Mestre João Pequeno (foto), Mestre Boca Rica, Mestre Curió, Mestre Moraes e Mestre Cobra Mansa, esse encontro foi uma espécie de apresentação ao público local do então (re)emergente movimento angoleiro de Salvador (Vejam as imagens em http://br.youtube.com/watch?v=x4Q9hxRW8H8).
Na ocasião, pelo que se conta, constatou-se que Brasília não contava com seguidores característicos de qualquer das linhagens mais conhecidas da capoeira angola.

Continua...

Contexto

Não sou historiador e sim apenas um interessado, mas acho que vale dar uma olhada em algumas passagens da história da capoeira angola em Brasília, capital do Brasil.
Começando por onde mais sei, digo logo que o Grupo Nzinga de Capoeira Angola está há oito anos neste Distrito Federal. Até onde se sabe, é o mais antigo grupo de capoeira angola em atividade na cidade.
Mas é claro que não é a mais antiga referência à capoeira angola por essas bandas.
Brasília é uma cidade inventada. Brotou da mente de um grupo de pessoas, políticos e técnicos, como o presidente Juscelino Kubitschek e os arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, e precisou ser construída do zero.
E vieram muitos capoeiristas entre os candangos que fizeram o trabalho pesado, bem como nas muitas levas de pessoas do país inteiro que desde antes da inauguração, em 1960, vieram tentar a vida por aqui. Inclusive angoleiros, segundo a tradição oral, como o Mestre Gato, um baiano muito lembrado pelos mais velhos da comunidade capoeirística local.

Continua...