Às leitoras e aos leitores...
As opiniões são pessoais e, portanto, de minha inteira responsabilidade, não correspondendo necessariamente a qualquer posição oficial do Grupo Nzinga.
Peço licença às mestras e mestres, de hoje e de sempre, para humildemente participar nessa roda. Sou um aprendiz. Procurarei mantê-lo atualizado e espero que seja de algum jeito útil.
Um abraço!
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
"Viva Pastinha" - 10 Anos de Nzinga Brasília
sábado, 22 de maio de 2010

quarta-feira, 22 de abril de 2009
Segundo "Viva Pastinha"
A abertura foi na Fundação Cultural Palmares, com a presença de seu atual presidente, Zulu Araújo, bem como de outros convidados e convidadas ilustres, como os professores Nelson Inocêncio e José Jorge Carvalho.
Ao longo da programação, que mesclou muita arte e capoeira com discussões aprofundadas, aprendemos muito com as palestras do pesquisador Sales Augusto dos Santos e do professor Edson Cardoso, diretor do Jornal Irohin.
Na parte cultural, foram marcantes a oficina de frevo de Uirá Dias, o espetáculo do Boi de Seu Teodoro, a aula de dança dos inquices do Tata Mutá Imê e o forró arretado de Sivuquinha. Além, é claro, do grande Tião Carvalho e da Orquestra Nzinga de Berimbaus!
Tudo permeado pelos ensinamentos dos Mestres Paulinha, Janja e Poloca, em treinos e rodas cheias de ngunzo. Sem falar na presença vibrante da família Nzinga e de amigos, tanto de Brasília mesmo quanto gente como as meninas alunas de Leninho e Guaraná, de Goiânia, Dênis de Angolinha, Silvinho da FICA e Jorge do Grupo Zimba.
Pra mim, então, o gosto foi ainda mais especial porque no final fui feito treinéu do Grupo Nzinga, uma honra e uma emoção nunca imaginadas e impossíveis de descrever.
Esse clipe mostra um pouco do que foram aqueles momentos. Espero que curtam.
Realização:
INCAB - Instituto Nzinga de Estudos de Capoeira Angola e Tradições Educativas Banto no Brasil
Grupo Nzinga de Capoeira Angola - núcleo DF
Edição:
Camila Dutervil
Lucas Henrique de Paula
Filmagens:
Estúdio Zumbayllu
Apoio:
FAC - Secretaria de Cultura do Distrito Federal
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Só uns toques
Esse também é um tema que dá pano pra manga, a começar pelos toques em si.
Olhem por exemplo aquela famosa lista dos toques praticados por alguns dos principais mestres da capoeira angola da Bahia no século XX, coletados por Waldeloir Rego em seu livro "Capoeira Angola - Ensaio Sócio-Etnográfico", de 1968.
Pegando os Mestres Bigodinho, Bimba, Canjiquinha, Gato, Pastinha, Traíra e Waldemar, são listados os nomes de nada menos do que 32 toques!
Mas vejam que desses, 19 são executados por apenas algum dos mestres. Por exemplo, "angola dobrada" e "angola pequena" são só do Mestre Traíra, "estandarte" e "gêge" só do Mestre Waldemar, "muzenza" e "são bento grande em gêge" apenas do Mestre Canjiquinha, e por aí vai.
De outro lado, não mais que três toques são executados por todos esses famosos mestres: "cavalaria", "santa maria" e "são bento grande". No caso do toque "angola", hoje considerado como o mais característico desse estilo, dá até pra imaginar porque não foi mencionado por Mestre Bimba, mas é um pouco estranho que Mestre Waldemar não o tenha incluído em sua lista.
Tudo muito interessante, mas a coisa é ainda mais complicada...
Quem disse que os nomes correspondem ao mesmo jeito de tocar para cada um dos mestres? Tudo indica que não. O Kay Shaffer, na sua monografia "O Berimbau-de-barriga e seus Toques", de 1977, mostrou bem que um nome pode valer para mais de uma maneira de executar, assim como uma maneira de executar corresponder a diferentes nomes.
Nada disso mudou. Ainda hoje, não existe consenso nessa matéria e desconfio de que nunca vai existir. Mestre Cobra Mansa contou que uma vez perguntou a um mestre antigo como era determinado toque. Tempos depois, voltou a encontrar o mesmo mestre e ele mostrou um toque diferente. Há também o caso de dois dos mais famosos mestres da Bahia na atualidade, que não chegaram a um acordo sobre a maneira correta de se executar o são bento grande.
Deve ser por essa razão que meus mestres sempre falam que não é o nome que importa, mas saber fazer os toques e suas variações dentro do fundamento.
Por falar em fundamento, fazendo um parêntese, em minha opinião a obra mais interessante e aprofundada sobre a música da capoeira angola continua sendo a apostila "O Universo Musical da Capoeira", escrita pela Mestra Janja e publicada pelo Grupo de Capoeira Angola Pelourinho - GCAP, em agosto de 1994. Não é um texto técnico, de teoria musical, mas com certeza repleto de informações valiosas.
Mas vamos um pouco adiante, apenas para voltar a falar sobre a relação entre o toque e o tipo de jogo.
Mestre Noronha, em seu "ABC da Capoeira Angola", publicado em 1993 pelo Centro de Documentação e Informação Sobre a Capoeira - CIDOCA/DF, resume: o jogo de capoeira começa com o "jogo de dentro", que é "de grande obicervação", depois entram o "sambento grande", "de armação de golpe", e o "sambento pequeno" "para disfazer este golpe". O "samba de angola" era "para rasteira e joelhada" e o "panha laranja no chão tico tico" de "jogo baixo e alto".
Ele fala ainda do toque "quebra mi com gente macaco", "para balão de bouca de calça", e do "este negro é o cão", para "jogo violento". É curioso, pois esses nomes hoje em dia são associados a corridos e não a toques.
O Grupo Nzinga está entre os que preferem que a ladainha seja cantada na levada do angola. E assim costuma seguir a bateria numa roda. Mas já repararam que no CD do Mestre Pastinha as ladainhas são cantadas sim ao toque de angola, mas quando começam a chula e os corridos, o gunga puxa um são bento grande mais acelerado?
E falando em velocidade, todo mundo lembra do disco do Mestre Traíra, um dos maiores ícones da capoeira angola. Tem momentos em que ele acelera o ritmo até uma quase alucinação. Aliás, pelas músicas que deixou gravadas, dá pra concluir que Mestre Waldemar também prefere um andamento mais forte.
Excelente, ainda que em muitos momentos mais vale uma levada bem segura e lenta, quase solene, meditativa, diria até espiritualizada. Como a do Mestre Moraes em seu último CD, "Roda de Angola", de 2008, que foi vendido pela Revista Praticando Capoeira nas bancas do Brasil.
Mestre Decânio, em seu importante livro "A Herança de Mestre Bimba", também sustenta que a capoeira é uma só e que os toques definem o jogo a ser jogado. Em suas palavras:
- Cavalaria - jogo duro, pesado, violento.
- Iuna - jogo baixo, manhoso, sagaz, ardiloso, coreográfico, exibicionista, retorno ao estilo lúdico.
- Banguela e Banguelinha - jogo de dentro, corpo a corpo, colado, treinamento para defesa de arma branca.
- Idalina - jogo alto, solto, manhoso, rico em movimentos.
- São Bento Grande - jogo ao estilo regional, forte, rápido, mais para violência que para exibicionismo, viril sem perder a malícia.
- São Bento Pequeno, jogo mais suave, corpo a corpo, aceitando mais deslocamentos e malícia.
- Santa Maria - toque simples porém rápido, permite jogo solto e alto, aceitando bastante floreio.
- Amazonas - criação do Mestre Bimba, dificílimo de acompanhar, tal a riqueza de ritmos, a sutileza das variações melódicas, poucos capoeiristas conseguiam obedecer aos seus comandos, mais raros ainda os que conseguiam executá-lo no berimbau.
Quanta riqueza tem a capoeira! Infelizmente eu nunca tive a oportunidade de presenciar nada parecido. Aliás, o mais curioso é que, das vezes que assisti rodas de capoeira regional, em geral se começava com um toque de angola, antes do ritmo acelerar. Aí eu não conseguia perceber muita variação de toques e de tipo de jogo.
Na capoeira angola tampouco minha pouca experiência permitiu participar de rodas em que houvesse mudanças de toque para virar o jogo. Aliás, talvez não seja só inexperiência. Lembro-me bem que Mestre Cobrinha uma vez disse, se eu entendi direito, que ele também não tem notícia dessas viradas de toques comandando mudança de jogo.
Pois é, no final das contas, acho que tudo isso faz parte da diversidade e da essência livre da capoeira, com suas muitas vertentes e linhagens. Quem sabe respeitar seu mestre e sua escola, saberá respeitar as outras. Enfim, seja qual for o toque, é fácil reconhecer um bom tocador e, principalmente, seremos sempre levados a outras dimensões pela magia de um berimbau bem tocado.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Remédios de Aruanda
Ai, ai, ai aiEu não tenho o livro comigo. Sequer me lembro do nome. O que li pertence à Mestra Paulinha e estava em Salvador. Mas me lembro bem da entrevista com a Makota Valdina Pinto, pessoa de imenso conhecimento da cultura afro-brasileira.
Quando eu cheguei de Aruanda
Trouxe muitos remédios
Dentro da minha capanga
Lá, Makota Valdina chamava a atenção para a importância de que as pessoas saibam por quê cantam certas músicas, em certas situações. Ela se referia de perto à religião, e citou como exemplo o refrão dessa música no começo do post, que por sinal faz parte do repertório do Grupo Nzinga.
Acho que entendo a preocupação da Makota. Certa vez, o Mestre Poloca ensinou que é normal não entendermos a princípio muitos dos códigos, rituais, letras e mandingas da capoeira, mas que é importante descobrirmos esses significados, sobretudo saber o que significam para nós mesmos.
No caso da nossa música aqui, sei que também é cantada em terreiros de candomblé e umbanda. E além de falar de uma forma poética da herança africana no Brasil, com certeza sopra muitos segredos.
Uma coisa que acho interessante sobre essa letra é a palavra "remédios". Aliás, já perguntava a Makota Valdina Pinto: "Por que remédios?"
Acredito que um pedaço da resposta pode estar, mais uma vez, em nossos ancestrais banto do Kongo. Na religião daqueles povos, os inquices, ou minkisi (plural de nkisi), são figuras sagradas, que passam por uma preparação ritual na qual adquirem poder curativo para as mais variadas enfermidades, físicas e espirituais. São, literalmente, remédios.
Seja qual for a resposta mais completa, minha convicção é que uma cultura que deixou uma marca tão profunda na religião (candomblé, umbanda), na música (samba, maracatu), nas folias (congada, capoeira), e muito mais, com certeza corre fundo na alma desse país. E pode aflorar a qualquer momento, com toda sua força e beleza.
sábado, 1 de novembro de 2008
Lutas da angola
No começo, era a briga pela sobrevivência.
A resistência contra a injustiça, diante de muita violência e sofrimento.
Rasteiras e cabeçadas contra a opressão.
Perseguição. Repressão. Dor.
A capoeira sempre sobreviveu.
E venceu muitas batalhas titânicas.
Pela liberdade, pela igualdade, por respeito.
Golpes, esquivas, mandingas e gingas.
Palavra, pensamento, filosofia e discussão.
Armas de ontem e de hoje.
Quais as lutas atuais da capoeira?
Com certeza, contra o racismo, tão real e dissimulado nesse Brasil.
Sem nenhuma dúvida, pelo reconhecimento do valor do saber tradicional.
Por uma velhice digna para os velhos mestres.
Pelo respeito à diversidade religiosa.
Etc. etc.
Dentre tantas lutas fundamentais, destaco uma, o combate ao machismo na própria capoeira.
Nenhuma surpresa, suponho.
Todo mundo sabe que essa é uma das bandeiras do Grupo Nzinga, um dos poucos no universo da capoeira angola com efetiva liderança feminina, sob a batuta de Mestra Paulinha e Mestra Janja.
Pra falar do tema, aproveito um material que preparei para um bate-papo do qual participei, sobre o papel da mulher na capoeira.
Foi no aniversário do Grupo Nzambi, da Mestra Elma, outra exceção que confirma a regra, em maio deste ano, aqui mesmo em Brasília. (Pus a foto aí em cima)
Primeiro, pego emprestada (sem autorização prévia) uma frase da Mestra Janja:
"Partindo da tese que toma a capoeira enquanto uma estrutura social capaz de representar variados entendimentos sobre a vida social, se apresentado historicamente com capacidade para transgredir vários códigos e normas da ordem nas suas lutas de proteção e preservação, tais transgressões não incorporaram até o presente momento a proteção e a preservação dos direitos da mulher." (Janja)
De fato, quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir já percebeu que a capoeira, arma de libertação, muitas vezes entra em contradição consigo mesma, a partir de certas posturas autoritárias, até abusivas, que tentam negar às mulheres o que lhes é de direito e merecimento. Por que isso acontece?
Certamente não sou a pessoa mais indicada para responder, mas resolvi dar meu pitaco. E, para começar, creio que devemos pensar em como temos lidado com a tradição. Sim, pois não é difícil perceber que ela é muitas vezes usada mais como instrumento de reprodução e perpetuação de relações de poder do que qualquer outra coisa. Aí, fica a pergunta: até que ponto ela pode e deve ser reinterpretada e resignificada?
Tome-se o exemplo do candomblé, religião professada por muitos capoeiristas. Historicamente, as mulheres têm nele um lugar de destaque, senão de liderança máxima, o que aliás não é comum entre as religiões de um modo geral. Apesar de terem brotado da mesma raiz, estranhamente, a capoeira se transformou em um feudo masculino.
No passado, as mulheres capoeiristas tinham que se masculinizar para ganhar espaço e respeito na capoeira. Basta ver seus apelidos: Maria Doze Homens, Rosa Palmeirão, Claudivina Pau-de-Barraca, Dora das Sete Portas, Maria Homem e Júlia Fogareira. Mulheres fortes, sem dúvida, que deixaram seus nomes na história. Mas será que ainda hoje as mulheres terão que conquistar seu espaço "na porrada"?
É triste costatar que em pleno século XXI as mulheres continuam se deparando com diversas formas de violência também no interior da capoeira. Há depoimentos de várias formas de assédio, passando pela agressão sexual e psicológica. E o que é pior, muitas vezes partindo dos próprios mestres, dos responsáveis pelos grupos ou de alunos mais experientes.
Por outro lado, é preciso reconhecer que há muitas maneiras mais sutis de opressão. As letras de músicas, por exemplo. No Nzinga, chegamos a mudar letras "tradicionais" e não posso negar que dá uma ponta de orgulho em ver que cada vez mais grupos soltam a voz para dizer que a capoeira "tem homem e tem mulher". Tampouco cantamos canções que reforçam estereótipos femininos negativos.
Enfim, a questão é complexa e merece nossa reflexão. E ação. Que as mulheres possam assumir posições de liderança em seus grupos por seu próprio valor e merecimento, como qualquer pessoa, "pegar o gunga" e ajudar a capoeira a cumprir, mais uma vez, sua vocação revolucionária e libertadora.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Duas músicas
São músicas tradicionais do candomblé de angola, cantadas em linguagem africana, provavelmente de base quimbundo e quicongo, com partes em português.
Eu selecionei duas delas, acompanhadas de uma possível tradução, que tirei do livro "Jamberesu - Cantigas de Angola", de Mario Cesar Barcellos, além de um breve comentário.
Primeira música:
"Oiá, Oiá, Oiá ê...
Oiá Matamba di kakurukaju zinguê
Oiá, Oiá ,Oiá ê
Oiá Matamba di kakurukaju, zinguê ô..."
Tradução:
"Governa, governa, governa, sim,
A velha Matamba governa desde muito tempo.
Governa, governa, governa, sim,
A velha Matamba governa desde cedo."
Segunda música:
"Nkosi biole sibiolala
Nkosi biole sibiolala
Nkosi biole sibiolala, eme kajamungongo,
Nkosi biole sibiolala
Eme kajamungongo...
Nkosi biole sibiolala."
Tradução:
"O Guerreiro dá risadas quando vence
O Guerreiro dá risadas quando vence
O Guerreiro dá risadas quando vence, meu protetor,
O Guerreiro dá risadas quando vence
Meu protetor...
O Guerreiro dá risadas quando vence."
-> Comentário: Nkosi, ou Rogi Mukumbe, seria o equivalente ao nagô Ogun.
domingo, 21 de setembro de 2008
Um pouco de filosofia
Seja como for, uma coisa é certa: pertencer não é o mesmo estar frequentando um espaço de trocas meramente comerciais, como tantos que estão em oferta por aí, ou de busca de uma realização puramente individual.
Pelo que entendo, os grupos de capoeira angola devem se definir como organizações culturais e educativas em sentido amplo. Não como academias, espaços esses que privilegiam certos aspectos estéticos e funcionais do corpo, a partir dos paradigmas da educação física.
Estamos falando do pertencimento a uma tradição e a uma forma tradicional de ver as coisas.
Até onde eu posso falar, a capoeira angola que o Grupo Nzinga se propõe a praticar é a da “escola” do Mestre Pastinha. Isso significa várias coisas fundamentais.
Do ponto de vista filosófico, estamos assentados em um tripé: ancestralidade, oralidade e comunidade. Estes são conceitos que vêm da tradição.
Ancestralidade não tem nada a ver com descendência racial e/ou étnica. No nosso caso, refere-se em primeiro lugar à presença e valorização da memória do Mestre Pastinha. Ele é a matriz de uma descendência cujas reflexões e práticas definem seus próprios códigos de pertencimento e resistência cultural, como diz a Mestra Janja.
Esse fundameto ancestral também diz respeito aos vínculos originários entre a capoeira e a religião afro-brasileira, no sentido de um pertencimento a um tronco comum e perene, não como atividade. Ou seja, nada obriga aos praticantes da capoeira a iniciação religiosa. Porém, é mais do que presente uma africanidade pautada no convívio com o sagrado, o sobrenatural, o mistério, a mandinga. É a partir daí que se estrutura a identidade angoleira.
Por comunidade entende-se o grupo amplo formado por aqueles e aquelas que, podendo estar distribuídos em cidades, países e culturas distintas e até distantes, partilham os mesmos códigos de pertencimento e símbolos de identidade. Isto por sua vez implica atitudes e condutas, com conteúdo ético e moral próprio, cuja principal consequência é a consciência da responsabilidade por cuidar da própria fonte da tradição. Isso une todos os angoleiros e angoleiras.
Finalmente, tem-se a oralidade como principal via de repasse do conhecimento. Mestra Janja ensina que essa relação complexa pode variar nas estruturas individuais de relacionamento (mestre-discípulo) e/ou coletivas de envolvimento (mestre-discípulos e estes entre si), correspondendo em qualquer caso à valorização de uma técnica de educação tradicional africana. Na prática, estamos falando de coisas como tempo e convivência. De saber calar, ouvir e falar. De ensinar pelo exemplo. De respeito a quem é mais velha e mais velho. De uma lógica que desafia a linearidade e promove a circularidade.
Bem, o assunto é amplo e profundo, como a própria capoeira angola. Talvez até por isso Mestre Pastinha tenha dito que "seu princípio não tem método e o seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista".
De qualquer jeito, estou convencido de que exercício constante de seus fundamentos é uma contribuição decisiva não apenas para o aprimoramento individual de cada um de nós, mas, sobretudo, para o processo de construção de uma forma alternativa de agir socialmente.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Contexto 3
Em 1998, se não me engano, um aluno do Mestre Goiano, de Goiânia, o Ubiranei, sul-matogrossense de apelido Baiano, começou um trabalho na UnB. Eu mesmo, que acabara de me mudar para a cidade, treinei com o grupo por quase um ano. Pelo que me recordo, o Malungos (esse era o nome do grupo) se dissolveu uns dois anos depois. Quando isso aconteceu, por sinal, já tínhamos começado o trabalho do Nzinga DF.
Desde então, a capoeira angola tem aos poucos se firmado em terras candangas. Nesse processo, foi importante a chegada da maranhense Mestra Elma, aluna de Mestre Pato, que deu seguimento por aqui ao Grupo Nzambi, nascido em Porto Alegre.
Como reflexo desse movimento, e também do crescente interesse de alguns grupos de capoeira regional, diversos mestres e mestras estiveram na capital nos últimos dez anos. De cabeça, posso citar Mestra Janja, Mestra Paulinha e Mestre Poloca, do Grupo Nzinga, em vários eventos que promovemos. Nosso grupo também promoveu a vinda de Mestre Cobra Mansa e de Mestre Valmir, da Fundação Internacional de Capoeira Angola - FICA.
Além desses, vale destacar as presenças de: Mestre Ananias, Mestre Virgílio, Mestre Boca Rica, Mestre Jogo de Dentro, Mestre Pato, Mestre Moraes, Mestre Angolinha, Mestre Jurandir, Mestre Lua Rasta, Mestre Cláudio de Feira de Santana, Mestre Sapo de Olinda, Mestre Roxinho e Mestre Goiano.
