Às leitoras e aos leitores...

O intuito deste blog é facilitar a comunicação, fazendo circular a informação e promovendo conexões de idéias e pessoas que se interessam pela capoeira angola.
As opiniões são pessoais e, portanto, de minha inteira responsabilidade, não correspondendo necessariamente a qualquer posição oficial do Grupo Nzinga.
Peço licença às mestras e mestres, de hoje e de sempre, para humildemente participar nessa roda. Sou um aprendiz. Procurarei mantê-lo atualizado e espero que seja de algum jeito útil.
Um abraço!

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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Senhor São Bento

Outro dia um leitor anônimo perguntou se eu sabia o porquê de o toque de berimbau ser chamado São Bento.

Não sei. Mas fiquei curioso.

Realmente, esse santo, que é cultuado tanto por católicos quanto por cristãos ortodoxos, tem uma presença igualmente marcante na capoeira.

De chofre, além dos toques São Bento Grande, São Bento Pequeno, São Bento da Regional, entre outras variações, dá pra lembrar de um punhado de corridos:

Valha-me Deus, Senhor São Bento, buraco véi tem cobra dentro...

A cobra me morde, Senhor São Bento...

Ai ai, ai ai, São Bento me chama...

Fui pesquisar na internet, que é o mais fácil, até porque o que tenho de livros está ainda está encaixotado depois de uma mudança.

Além do mais, não me recordo de ter ouvido algo a respeito da boca de algum mestre.

Com a ajuda de outro "santo", o Google, achei uma crônica do Miltinho Astronauta de maio de 2005, intitulada "Papa Bento XVI e São Bento da Capoeira". Tá publicada lá no Portal da Capoeira.

Bem legal, mas que não ajudou a responder minha dúvida.

Também topei com o blog de um capoeirista chamado Felipe, apelido Salsicha, que treina no Grupo Abadá. Lá tem um pequeno texto, "São Bento e a Capoeira", em que ele levanta duas hipóteses sobre a origem da associação entre nosso santo e a capoeira.

A primeira possibilidade seria que os monges beneditinos, no tempo da escravidão, teriam sido "bons senhores", em comparação com outros, e seriam de certa forma homenageados por isso, com as referências ao santo da devoção deles. Segundo o Felipe, essa idéia dele tomou forma em conversas com dois monges da Ordem de São Bento do Rio de Janeiro.

Eu, francamente, acho improvável, pra dizer o mínimo. Falar em senhores benevolentes no Brasil escravista pra mim já é uma contradição em termos, um absurdo mesmo, ainda que os beneditinos assim possam gostar de se ver.

A outra hipótese do Salsicha é que São Bento seria conhecido por "afastar as desgraças corporais, além de proteger de agressões físicas".

Essa já é bem mais interessante.

Fuçando um pouco mais, acabei descobrindo que nas igrejas contam que certa vez monges inconformados com suas regras tentaram matar Bento por envenenamento. Porém, antes de beber o vinho que lhe ofereciam, ele abençoou o cálice, que imediatamente se quebrou em vários pedaços.

Em outra ocasião, o santo se livrou da morte ao recusar um pão também envenenado oferecido por um monge invejoso. Assim que fez o sinal da cruz, um corvo apareceu e levou o pedaço de pão embora.

Pra mim essa pode ser a senha pra desvendar nossa charada.

Tira a cobra do caminho meu Senhor São Bento...

Essa cobra é venenosa, tá querendo me morder...

Cobra coral, cobra coral...

Tá na cara! Ou não?

Tem bicho mais peçonhento que as serpentes?

Pode até ter, mas não no imaginário dos capoeiristas.

Então fico aqui pensando que não há mesmo de ser à toa que São Bento se tornou o santo protetor contra as víboras que vez por outra querem cruzar o nosso caminho e, se conseguirem, nos envenenar.

Pra completar, fiquei sabendo que tem uma medalha do santo. Para os devotos, ela serve de remédio contra males físicos e espirituais, de pessoas e animais. Além de trazê-la consigo, é comum enterra-la nas casas em construção, para o bem de quem ali for morar.

Talvez concordem que não é difícil associar esse poder da medalha a práticas e poderes bem próprios da religiosidade afro-brasileira e, por tabela, da capoeira. Quem tem alguma familiaridade com os fundamentos do candomblé vai saber do que estou falando.

Se tu pode com mandinga, carregue teu patuá...

Tudo isso, enfim, deve ter ajudado nesse reconhecimento, nessa adoção, nessa identificação de São Bento como protetor contra os males da peçonha, do ardil, da trairagem.

Essa é a Oração de São Bento:

A cruz sagrada seja minha luz
Não seja o dragão meu guia
Retira-te Satanás
Nunca me aconselhes coisas vãs
É mal o que tu me ofereces
Bebe tu mesmo o teu veneno

É isso. Não estou dizendo que essa é a verdade, mas...

Essa é minha opinião...

PS1 - Pessoal, esse é meu primeiro post depois de nove meses. Um parto! :) Fico feliz que o blog ainda assim já tenha tido quase 14 mil acessos desde outubro de 2008!! Agradeço demais as visitas e, ainda mais, os comentários. Pretendo retomar meus rabiscos com maior frequência a partir de agora. Ngunzo!!!

PS2 - As informações sobre São Bento foram tiradas do sítio http://www.cot.org.br/igreja/index.php.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O que faz alguém mestre de capoeira?

Certa vez, em um histórico encontro em Minas Gerais, estiveram reunidos vários mestres de capoeira angola.
Uma das mesas de discussão tinha por tema o "ser mestre", ou algo assim, e era composta pelo Mestre João Pequeno e o então Contramestre Valmir, entre outros.
No decorrer do debate, Mestre Moraes, da platéia, tascou a pergunta, dirigida a Valmir, o mais novo daquela turma: "O que faz alguém mestre de capoeira?"
Que situação!
Uma daquelas em que parece que tudo pode acontecer.
Mestre Valmir, que teve muito bom professor, saiu-se na mandinga dessa sinuca de bico: "Deixo ao Mestre João Pequeno, como mestre mais velho aqui presente, responder a sua pergunta, mestre".
Foi a deixa para que todos pudessem ouvir a mais perfeita definição de mestre, vinda não de teorias, estudos acadêmicos ou especulações, mas da mais pura essência capoeirística: "O mestre quem faz são seus alunos".
Pois é, depois dessa, assunto encerrado.
Quanta sabedoria concentrada!
Simples e genial.
Definitivo.
João Pequeno de Pastinha.
Acho que Mestre Moraes deve ter concordado sem hesitação.
Até porque ele já era um exemplo vivo disso.
Essa história com certeza ainda vai ser contada direito por alguém.
Por agora, basta dizer que além de pessoalmente ter um papel central e incomparável no renascimento da capoeira angola a partir dos anos oitenta, Mestre Moraes deixou uma descendência reconhecida por toda a comunidade por seu apreço aos fundamentos.
São filhos, netos, bisnetos... e por aí vai.
Alunos de alunos de alunos de alunos... de Mestre Moraes!
Eu não conheço um descendente que não se orgulhe dessa escola.
Pois é, essa estória me contou quem estava lá.
Se foi exatamente assim, não sei.
Só sei que gosto dela desse jeito mesmo.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Só uns toques

Um pouco na linha da postagem anterior, tem esse assunto dos toques de berimbau da capoeira e sua correspondência com o jogo, ou com o estilo.

Esse também é um tema que dá pano pra manga, a começar pelos toques em si.

Olhem por exemplo aquela famosa lista dos toques praticados por alguns dos principais mestres da capoeira angola da Bahia no século XX, coletados por Waldeloir Rego em seu livro "Capoeira Angola - Ensaio Sócio-Etnográfico", de 1968.

Pegando os Mestres Bigodinho, Bimba, Canjiquinha, Gato, Pastinha, Traíra e Waldemar, são listados os nomes de nada menos do que 32 toques!

Mas vejam que desses, 19 são executados por apenas algum dos mestres. Por exemplo, "angola dobrada" e "angola pequena" são só do Mestre Traíra, "estandarte" e "gêge" só do Mestre Waldemar, "muzenza" e "são bento grande em gêge" apenas do Mestre Canjiquinha, e por aí vai.

De outro lado, não mais que três toques são executados por todos esses famosos mestres: "cavalaria", "santa maria" e "são bento grande". No caso do toque "angola", hoje considerado como o mais característico desse estilo, dá até pra imaginar porque não foi mencionado por Mestre Bimba, mas é um pouco estranho que Mestre Waldemar não o tenha incluído em sua lista.

Tudo muito interessante, mas a coisa é ainda mais complicada...

Quem disse que os nomes correspondem ao mesmo jeito de tocar para cada um dos mestres? Tudo indica que não. O Kay Shaffer, na sua monografia "O Berimbau-de-barriga e seus Toques", de 1977, mostrou bem que um nome pode valer para mais de uma maneira de executar, assim como uma maneira de executar corresponder a diferentes nomes.

Nada disso mudou. Ainda hoje, não existe consenso nessa matéria e desconfio de que nunca vai existir. Mestre Cobra Mansa contou que uma vez perguntou a um mestre antigo como era determinado toque. Tempos depois, voltou a encontrar o mesmo mestre e ele mostrou um toque diferente. Há também o caso de dois dos mais famosos mestres da Bahia na atualidade, que não chegaram a um acordo sobre a maneira correta de se executar o são bento grande.

Deve ser por essa razão que meus mestres sempre falam que não é o nome que importa, mas saber fazer os toques e suas variações dentro do fundamento.

Por falar em fundamento, fazendo um parêntese, em minha opinião a obra mais interessante e aprofundada sobre a música da capoeira angola continua sendo a apostila "O Universo Musical da Capoeira", escrita pela Mestra Janja e publicada pelo Grupo de Capoeira Angola Pelourinho - GCAP, em agosto de 1994. Não é um texto técnico, de teoria musical, mas com certeza repleto de informações valiosas.


Mas vamos um pouco adiante, apenas para voltar a falar sobre a relação entre o toque e o tipo de jogo.

Mestre Noronha, em seu "ABC da Capoeira Angola", publicado em 1993 pelo Centro de Documentação e Informação Sobre a Capoeira - CIDOCA/DF, resume: o jogo de capoeira começa com o "jogo de dentro", que é "de grande obicervação", depois entram o "sambento grande", "de armação de golpe", e o "sambento pequeno" "para disfazer este golpe". O "samba de angola" era "para rasteira e joelhada" e o "panha laranja no chão tico tico" de "jogo baixo e alto".

Ele fala ainda do toque "quebra mi com gente macaco", "para balão de bouca de calça", e do "este negro é o cão", para "jogo violento". É curioso, pois esses nomes hoje em dia são associados a corridos e não a toques.

O Grupo Nzinga está entre os que preferem que a ladainha seja cantada na levada do angola. E assim costuma seguir a bateria numa roda. Mas já repararam que no CD do Mestre Pastinha as ladainhas são cantadas sim ao toque de angola, mas quando começam a chula e os corridos, o gunga puxa um são bento grande mais acelerado?

E falando em velocidade, todo mundo lembra do disco do Mestre Traíra, um dos maiores ícones da capoeira angola. Tem momentos em que ele acelera o ritmo até uma quase alucinação. Aliás, pelas músicas que deixou gravadas, dá pra concluir que Mestre Waldemar também prefere um andamento mais forte.

Excelente, ainda que em muitos momentos mais vale uma levada bem segura e lenta, quase solene, meditativa, diria até espiritualizada. Como a do Mestre Moraes em seu último CD, "Roda de Angola", de 2008, que foi vendido pela Revista Praticando Capoeira nas bancas do Brasil.

Mestre Decânio, em seu importante livro "A Herança de Mestre Bimba", também sustenta que a capoeira é uma só e que os toques definem o jogo a ser jogado. Em suas palavras:

  • Cavalaria - jogo duro, pesado, violento.
  • Iuna - jogo baixo, manhoso, sagaz, ardiloso, coreográfico, exibicionista, retorno ao estilo lúdico.
  • Banguela e Banguelinha - jogo de dentro, corpo a corpo, colado, treinamento para defesa de arma branca.
  • Idalina - jogo alto, solto, manhoso, rico em movimentos.
  • São Bento Grande - jogo ao estilo regional, forte, rápido, mais para violência que para exibicionismo, viril sem perder a malícia.
  • São Bento Pequeno, jogo mais suave, corpo a corpo, aceitando mais deslocamentos e malícia.
  • Santa Maria - toque simples porém rápido, permite jogo solto e alto, aceitando bastante floreio.
  • Amazonas - criação do Mestre Bimba, dificílimo de acompanhar, tal a riqueza de ritmos, a sutileza das variações melódicas, poucos capoeiristas conseguiam obedecer aos seus comandos, mais raros ainda os que conseguiam executá-lo no berimbau.

Quanta riqueza tem a capoeira! Infelizmente eu nunca tive a oportunidade de presenciar nada parecido. Aliás, o mais curioso é que, das vezes que assisti rodas de capoeira regional, em geral se começava com um toque de angola, antes do ritmo acelerar. Aí eu não conseguia perceber muita variação de toques e de tipo de jogo.

Na capoeira angola tampouco minha pouca experiência permitiu participar de rodas em que houvesse mudanças de toque para virar o jogo. Aliás, talvez não seja só inexperiência. Lembro-me bem que Mestre Cobrinha uma vez disse, se eu entendi direito, que ele também não tem notícia dessas viradas de toques comandando mudança de jogo.

Pois é, no final das contas, acho que tudo isso faz parte da diversidade e da essência livre da capoeira, com suas muitas vertentes e linhagens. Quem sabe respeitar seu mestre e sua escola, saberá respeitar as outras. Enfim, seja qual for o toque, é fácil reconhecer um bom tocador e, principalmente, seremos sempre levados a outras dimensões pela magia de um berimbau bem tocado.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Mestre Canjiquinha e o espírito da capoeira regional contemporânea

Como todos sabemos, há muitas controvérsias na capoeira.

Outro dia eu pus no ar essa enquete: "Que angoleiro famoso disse: 'Não existe capoeira regional nem angola. Existe capoeira'".
A maioria dos seis leitores que responderam acertou. Foi o Mestre Canjiquinha (foto), conforme está registrado no livro "Canjiquinha - alegria da capoeira", uma coletânea de depoimentos publicada em 1989, pela Editora A Rasteira, sob a coordenação de Antônio Moreira.

Vou botar a citação completa, que está na página 21:

"Não existe capoeira regional nem angola. Existe capoeira. Apelidaram capoeira de angola porque foi praticada, aqui no Brasil, por volta de 1855 pelos escravos na sua maioria angolanos.
Então, eles ficavam na senzala treinando. Eles viram que dava para se defenderem com ela. Então, botaram o nome de capoeira angola.
MAS, CAPOEIRA É BRASILEIRA.
O ÚNICO ESPORTE BRASILEIRO É CAPOEIRA.
EU SOU CAPOEIRISTA. NÃO SOU NEM ANGOLEIRO NEM REGIONAL.
Porque não canto música em angola, que não sou de candomblé. eu canto capoeira e jogo capoeira.
Agora, capoeira é de acordo com o toque. Se você está numa festa: se tocar bolero você dança bolero; se tocar samba você dança samba; - a capoeira é conforme: tocando maneiro você dança amarrado; tocando apressado você apressa.
O ÚNICO ESPORTE BRASILEIRO É CAPOEIRA."
Uma das coisas que me chama a atenção nessa fala é que ela cabe tranquilamente no discurso de grande parte dos praticantes da atual capoeira regional, às vezes auto-denominada de contemporânea.

Digo porque já ouvi algo parecido várias vezes. Também já li, principalmente em revistas como a Praticando Capoeira, a Ginga Capoeira, a Revista Capoeira e a Cordão Branco, que sempre trouxeram entrevistas com mestres de várias partes do Brasil.

Um resumo bem resumido dessa, digamos, ideologia: (i) capoeira é uma só; (ii) capoeira é brasileira; (iii) o que manda no jogo é o toque.

Mestre Canjiquinha foi reconhecidamente um grande angoleiro. Chegou a unir-se a Mestre Pastinha
por um tempo, como contramestre do CECA, mas sempre teve estilo próprio. Respeitado por todos, seus alunos já nos anos 40 ou 50 começaram a sair da Bahia. Hoje, vários grupos de capoeira angola proclamam sua herança.

A dúvida, então, é saber como ele de certa forma se tornou uma espécie de patrono desse jeito contemporâneo de encarar a capoeira. Não sei a resposta, mas acho que uma comparação entre Canjiquinha e Pastinha talvez ajude a pensar.

Pensem comigo. Mestre Pastinha resgatou a capoeira angola, inovando, com o olhar posto nas origens, na África, voltando-se para a tradição como referência básica. Mesmo as grandes e decisivas mudanças que introduziu foram iluminadas por esse espírito, que passou a inspirar gerações de capoeiristas depois dele.

Mestre Canjiquinha também era a própria tradição. Isso não se questiona. Mas com uma diferença. Evidentemente, ele tinha uma visão mais aberta da capoeira, sempre pronta para receber outras influências, voltada para o futuro, pré-disposta a mudar. Por outro lado, não escondeu que para ele a capoeira era brasileira. Ponto.

Esse jeito de ver as coisas pode ter sido a senha para os praticantes da capoeira regional, criada por Mestre Bimba já sob o signo da novidade e da "evolução", entrarem em um processo ininterrupto de metamorfose. Não pode ser à toa que hoje em dia tem tanta modalidade híbrida de capoeira regional com outras lutas, danças, terapias, etc.. Isso não se observa com a capoeira angola. Aliás, até mesmo a capoeira angola foi em certo momento (re)enxertada nessa sempre "nova" capoeira.

A propósito, como contraponto, é curioso constatar que a capoeira regional nas regras originais de Mestre Bimba, modernamente representada de maneira mais do que distinta pelo trabalho de seu filho, Mestre Nenel, se tornou ela própria uma exceção, quase uma seita tradicionalista, em meio ao turbilhão da capoeiragem contemporânea. Será que ela sobreviveria se não fosse assim?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Pra inglês ver?


O Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty) lançou este ano um número de sua revista "Textos do Brasil" dedicado exclusivamente à capoeira.

Feliz ou infelizmente, não sei ao certo, trata-se de uma publicação voltada para a divulgação da cultura brasileira no exterior.

Digo isso porque muita gente, mas muita mesmo, no próprio país ficaria mais do que feliz de ter acesso a esse material, que no entanto não tem sido muito divulgado por aqui.

Neste número 14, um time de bambas aborda uma série de aspectos da capoeira.

A seleção vai dos "desafios contemporâneos", tema do Mestre Luiz Renato Vieira com Matthias Assunção, aos "aspectos mítico-religiosos", por Pedro Abib, passando pelo "ritual da roda", de Rosa Maria Simões.

São 18 textos, dos quais destaco ainda a entrevista com minha Mestra Janja. Imperdível.

Fica então essa dica para quem se interessar. O endereço na internet é:


Uma abraço!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Tem alguma coisa errada com a capoeira angola?

Nunca na história a capoeira angola foi tão difundida.
Brasil afora e pelos quatro cantos do mundo, hoje é possível encontrar angoleiras e angoleiros de valor.
Também não tem paralelo a quantidade de informações agora disponíveis, pelos mais variados meios, aos interessados na arte.
São livros, revistas, CDs, DVDs, teses e mais.
Na internet, os grupos se organizam para estar on-line, divulgando e promovendo suas atividades.
É raríssimo um evento cuja programação não inclua debates, palestras, exposições, lançamentos e outras formas de difusão da informação.

Onde fica a relação mestre-aprendiz, mais velho-mais novo, fundamento da transmissão do saber ancestral, em meio a essa avalanche?
Eu pergunto porque venho reparando, aqui e acolá, alguns sinais que me deixam com a pulga atrás da orelha.
Pra exemplificar, cito acontecimentos recentes.
Alguns eu mesmo presenciei.
Outros, me contaram.
Não vou revelar nomes.

Um deles envolveu um velho mestre baiano, muito conceituado e respeitado.
Convidado a lançar seu CD, organizou-se uma roda em sua homenagem.
E não é que aí mesmo um capoeirista colocou o dedo em riste na cara do mestre, desdenhando sua autoridade, seja como mestre, seja como pessoa idosa?

Outro episódio aconteceu com um conhecido mestre carioca, admirado por sua índole e trabalho.
Fora do país para uma série de workshops, como gostam de dizer por lá, só então ficou sabendo que haveria uma deserção em massa de seu grupo.
Até aí tudo bem. Divergências acontecem.
O problema é que não o trataram como qualquer mestre, por ser mestre, merece.

Pra não alongar demais o papo, um último caso, em que um famoso mestre baiano jogou com um novato.
Resumindo, acossado por mãos na cara e outras artimanhas muito além da sua capacidade de reação, o coitado mal conseguiu ficar em pé na roda, saindo dali visivelmente humilhado.

Fiquei pensando com meus botões: quais os valores éticos que a capoeira angola está semeando?
Muitos gostam de salientar uma certa ética da malandragem, da malícia e da falsidade.
Tudo bem.
Mas será que ela vale contra o forte e contra o fraco?
Contra o jovem e contra o velho?
Na roda e na vida?
Sempre?

Quem nunca ouviu estórias de desonestidades entre capoeiristas?
Inclusive de mestres ou professores com seus próprios alunos!

Uma coisa que pode estar acontecendo é que a questão comercial, a ganância para ocupar novos "mercados", esteja levando algumas pessoas a passar por cima de certos valores de convivência e respeito, indo contra a própria essência comunitária da capoeira angola.
Talvez a própria velocidade da expansão, nem sempre acompanhada em maturidade pelos angoleiros e angoleiras em formação, seja um fator.

Não sei o que vocês pensam.
Será que os exemplos que eu mencionei são motivo para preocupação?
Qual o significado de valores como justiça, liberdade, ancestralidade e solidariedade para angoleiros e angoleiras de hoje e, principalmente, de amanhã?
No mínimo, acho que cada grupo e cada capoeirista pode pensar sobre qual capoeira angola quer para si.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Matéria histórica

Eu ainda nem tinha nascido. No dia 11 de fevereiro de 1967, a revista Realidade, que nem existe mais, publicou uma matéria importante sobre a capoeira.
O personagem principal é o saudoso Mestre Pastinha, cujo aniversário de passagem se celebra hoje.
Nela, o Mestre teve a rara oportunidade de falar um pouco mais sobre suas idéias e história.
Na reportagem, também há espaço para o Mestre Bimba, o não menos célebre criador da Luta Regional Baiana. (Detalhe: ao lado de Bimba, na última foto, de camisa azul, Mestre Bigodinho, como o povo de angola o chama, ou Mestre Gigante, assim chamado pelo pessoal da capoeira regional)
O texto é de Roberto Freire, psicólogo, já falecido, que viria a criar a somaterapia, à qual incorporou elementos da capoeira angola.
Tomo a liberdade de reproduzir essa matéria histórica aqui, até porque penso que não é tão fácil encontrá-la por aí.
Que seja uma pequena homenagem à memória dos mestres da capoeira, em especial, claro, do grande Mestre Pastinha!


(clique para ampliar)










Lembrando Mestre Pastinha

Hoje, 13 de novembro, há exatos 27 anos, morreu Vicente Ferreira Pastinha.
A parte conhecida de sua história é bastante divulgada, não carecendo repetir aqui.
Não era o único grande capoeira de sua época, contemporâneo que foi de lendas como Waldemar, Espinho Remoso, Traíra, Paulo dos Anjos e muitos outros.
Contou que aprendeu a capoeira com um velho africano de nome Benedito, do qual praticamente nada sabemos, mas que sem dúvida também era um grande mestre.
Mestre João Pequeno, discípulo mais antigo de Mestre Pastinha na atualidade, certa vez, perguntado sobre o que torna alguém um mestre de capoeira angola, disse, com toda sua genial e simples sabedoria: "O que faz o mestre são seus alunos".
Essa frase nunca saiu da minha cabeça e penso que em grande parte explica a grandeza de Mestre Pastinha.
Em vida, não lhe faltaram os detratores, os invejosos, os que não souberam compreender sua mensagem e seu valor. Pior ainda, até mesmo após sua morte houve aqueles que tentaram diminui-lo perante a história.
Em vão.
Mestre Pastinha, por seu exemplo, dedicação e obra, alcançou estatura única.
Mais do que isso, tantos anos depois de sua chegada ao mundo dos ancestrais, as sementes que deixou, e que se transformaram em novas árvores, são a maior prova de sua dimensão maior.
Obrigado Mestre!
Obrigado por tanto que nos deixou.
Aqui, do lado de cá da kalunga, continuaremos nos esforçando para merecer o seu legado.

sábado, 1 de novembro de 2008

Lutas da angola

Grupo Nzambi e convidados (sou o de chapéu)

No começo, era a briga pela sobrevivência.
A resistência contra a injustiça, diante de muita violência e sofrimento.
Rasteiras e cabeçadas contra a opressão.
Perseguição. Repressão. Dor.
A capoeira sempre sobreviveu.
E venceu muitas batalhas titânicas.
Pela liberdade, pela igualdade, por respeito.
Golpes, esquivas, mandingas e gingas.
Palavra, pensamento, filosofia e discussão.
Armas de ontem e de hoje.

Quais as lutas atuais da capoeira?
Com certeza, contra o racismo, tão real e dissimulado nesse Brasil.
Sem nenhuma dúvida, pelo reconhecimento do valor do saber tradicional.
Por uma velhice digna para os velhos mestres.
Pelo respeito à diversidade religiosa.
Etc. etc.

Dentre tantas lutas fundamentais, destaco uma, o combate ao machismo na própria capoeira.
Nenhuma surpresa, suponho.
Todo mundo sabe que essa é uma das bandeiras do Grupo Nzinga, um dos poucos no universo da capoeira angola com efetiva liderança feminina, sob a batuta de Mestra Paulinha e Mestra Janja.

Pra falar do tema, aproveito um material que preparei para um bate-papo do
qual participei, sobre o papel da mulher na capoeira.
Foi no aniversário do Grupo Nzambi, da Mestra Elma, outra exceção que confirma a regra, em maio deste ano, aqui mesmo em Brasília. (Pus a foto aí em cima)

Primeiro, pego emprestada (sem autorização prévia) uma frase da Mestra Janja:


"Partindo da tese que toma a capoeira enquanto uma estrutura social capaz de representar variados entendimentos sobre a vida social, se apresentado historicamente com capacidade para transgredir vários códigos e normas da ordem nas suas lutas de proteção e preservação, tais transgressões não incorporaram até o presente momento a proteção e a preservação dos direitos da mulher." (Janja)

De fato, quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir já percebeu que a capoeira, arma de libertação, muitas vezes entra em contradição consigo mesma, a partir de certas posturas autoritárias, até abusivas, que tentam negar às mulheres o que lhes é de direito e merecimento. Por que isso acontece?

Certamente não sou a pessoa mais indicada para responder, mas resolvi dar meu pitaco. E, para começar, creio que devemos pensar em como temos lidado com a tradição. Sim, pois não é difícil perceber que ela é muitas vezes usada mais como instrumento de reprodução e perpetuação de relações de poder do que qualquer outra coisa. Aí, fica a pergunta: até que ponto ela pode e deve ser reinterpretada e resignificada?

Tome-se o exemplo do candomblé, religião professada por muitos capoeiristas. Historicamente, as mulheres têm nele um lugar de destaque, senão de liderança máxima, o que aliás não é comum entre as religiões de um modo geral. Apesar de terem brotado da mesma raiz, estranhamente, a capoeira se transformou em um feudo masculino.

No passado, as mulheres capoeiristas
tinham que se masculinizar para ganhar espaço e respeito na capoeira. Basta ver seus apelidos: Maria Doze Homens, Rosa Palmeirão, Claudivina Pau-de-Barraca, Dora das Sete Portas, Maria Homem e Júlia Fogareira. Mulheres fortes, sem dúvida, que deixaram seus nomes na história. Mas será que ainda hoje as mulheres terão que conquistar seu espaço "na porrada"?

É triste costatar que em pleno século XXI as mulheres continuam se deparando com diversas formas de violência também no interior da capoeira.
Há depoimentos de várias formas de assédio, passando pela agressão sexual e psicológica. E o que é pior, muitas vezes partindo dos próprios mestres, dos responsáveis pelos grupos ou de alunos mais experientes.

Por outro lado, é preciso reconhecer que há muitas maneiras mais sutis de opressão. As letras de músicas, por exemplo. No Nzinga, chegamos a mudar letras "tradicionais" e não posso negar que dá uma ponta de orgulho em ver que cada vez mais grupos soltam a voz para dizer que a capoeira "tem homem e tem mulher". Tampouco cantamos canções que reforçam estereótipos femininos negativos.

Enfim, a questão é complexa e merece nossa reflexão. E ação. Que as mulheres possam assumir posições de liderança em seus grupos por seu próprio valor e merecimento, como qualquer pessoa, "pegar o gunga" e ajudar a capoeira a cumprir, mais uma vez, sua vocação revolucionária e libertadora.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Frede Abreu

Uma das coisas que me motivaram a começar este blog é a vontade de ajudar a divulgar informações que acho interessantes, valiosas.

Tenho um bocado de material em casa: livros, artigos, matérias de revistas, entrevistas, etc.. São coisas que a gente vai juntando aqui e acolá, recebe de alguém, acha na internet, compra.
Então, vou usar este espaço para continuar garimpando nesse acervo. Não é nada de mais, mas pode ser útil para alguém.

Hoje escolhi falar de dois livros do pesquisador da capoeira Frede Abreu: "O Barracão do mestre Waldemar" e "Capoeiras: Bahia, século XIX". O primeiro é mais antigo, de 2003. Eu já tinha visto e até folheado um exemplar de um amigo meu, o Swai, mas só tempos depois vim a comprar. Comprei da mão do Mestre Lua Rasta, aqui mesmo em Brasília. Aliás, o mestre trouxe uma verdadeira quitanda da capoeira pra cá, com atabaques, berimbaus, livros, dvds, cds e mais.



Este Barracão é uma obra de fôlego. Bem pesquisado, escrito e ilustrado, é presença obrigatória em qualquer biblioteca sobre capoeira. O livro é um passeio pelas estórias da nata da capoeiragem baiana na primeira metade do séc. XX: além do próprio Waldemar da Liberdade, figuras como Nagé, Traíra, Caiçara, Maré, Cabelo Bom, Bimba, Noronha, Pastinha e Canjiquinha. Tem cada história de prender a gente na leitura. É começar e não querer mais parar. Uma verdadeira aula.

O segundo livro, Capoeiras, encomendei diretamente com o Frede, que me mandou o exemplar lá de Salvador. Esse, de 2005, veio para ajudar a preencher uma lacuna na historiografia sobre a capoeiragem baiana. Fruto de uma pesquisa invejável, esse trabalho esclarece muita coisa do período e, onde não é possível encontrar evidências, lança hipóteses convincentes. Imperdível.



É claro que elogiar o trabalho do Frede é chover no molhado. Todos conhecem sua competência. Ainda assim, queria compartilhar esses pensamentos com vocês.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Contexto 3

Não tenho conhecimento de trabalhos regulares de capoeira angola em Brasília nos dez anos que se seguiram. Mas é claro que isso pode ser só por desconhecimento meu. Uma vez me falaram de um grupo sedidado em uma das chamadas cidades-satélite, mas não consegui confirmar a informação.
Em 1998, se não me engano, um aluno do Mestre Goiano, de Goiânia, o Ubiranei, sul-matogrossense de apelido Baiano, começou um trabalho na UnB. Eu mesmo, que acabara de me mudar para a cidade, treinei com o grupo por quase um ano. Pelo que me recordo, o Malungos (esse era o nome do grupo) se dissolveu uns dois anos depois. Quando isso aconteceu, por sinal, já tínhamos começado o trabalho do Nzinga DF.
Desde então, a capoeira angola tem aos poucos se firmado em terras candangas. Nesse processo, foi importante a chegada da maranhense Mestra Elma, aluna de Mestre Pato, que deu seguimento por aqui ao Grupo Nzambi, nascido em Porto Alegre.
Como reflexo desse movimento, e também do crescente interesse de alguns grupos de capoeira regional, diversos mestres e mestras estiveram na capital nos últimos dez anos. De cabeça, posso citar Mestra Janja, Mestra Paulinha e Mestre Poloca, do Grupo Nzinga, em vários eventos que promovemos. Nosso grupo também promoveu a vinda de Mestre Cobra Mansa e de Mestre Valmir, da Fundação Internacional de Capoeira Angola - FICA.
Além desses, vale destacar as presenças de: Mestre Ananias, Mestre Virgílio, Mestre Boca Rica, Mestre Jogo de Dentro, Mestre Pato, Mestre Moraes, Mestre Angolinha, Mestre Jurandir, Mestre Lua Rasta, Mestre Cláudio de Feira de Santana, Mestre Sapo de Olinda, Mestre Roxinho e Mestre Goiano.